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Pra onde foi o voto?

O que abstenção, renda e região explicam, e o que não explicam, no resultado de 2026, com dados do TSE e do IBGE.

12 de out. de 2026
  • Dados
  • Eleições
  • Brasil

Todo mundo esperava um certo resultado em 2026. Ele não veio. Eu queria entender por quê, e o que seria uma tarde de conferência virou três notebooks. Toda explicação que eu tinha na cabeça se desfazia um pouco quando eu olhava os números.

Um aviso: eu trabalho com municípios, não com pessoas. Tudo aqui diz "onde", nunca "quem".

Abstenção

A primeira explicação que ouvi, e na qual eu meio que acreditava, era que o eleitor do Lula ficou em casa. A série não ajuda. A abstenção no primeiro turno foi de 20,95% em 2022 para 21,08% em 2026, mal um décimo de ponto. O movimento de verdade é mais antigo: 16,75% em 2006 e uma subida constante em toda eleição desde então. Se a abstenção decidiu 2026, ela teria que ser uma tendência de vinte anos que de repente resolveu escolher lado.

A taxa nacional esconde muita coisa, então dividi os municípios em dez grupos pelo quanto votaram no Lula em 2022. Se o eleitor dele tivesse ficado em casa, a abstenção subiria mais nos grupos do topo. Não sobe. No decil mais lulista ela caiu 0,4 ponto, nos dois seguintes subiu menos de 0,4, e os maiores aumentos estão no meio (decis 4 e 5, cerca de 1,2 ponto). Onde ela mais caiu, mais de 2 pontos, foi nos municípios menos lulistas.

Enquanto isso, o Lula perdeu entre 3 e 4,4 pontos dos votos válidos em todos os decis, um pouco mais onde já era mais fraco. Uma perda que aparece do mesmo tamanho onde a abstenção subiu e onde caiu é difícil de pôr na conta da abstenção.

As contas brutas contam a mesma história em votos. De 2022 para 2026 o Lula perdeu 3,4 milhões de votos e a direita ganhou 5,0 milhões, mais do que toda a perda dele. A abstenção cresceu 0,7 milhão, mais ou menos o esperado para um eleitorado que cresceu 2,3 milhões. O voto se moveu; não sumiu. E como são dados agregados, não dá para dizer que as mesmas pessoas trocaram de lado: uma mistura de eleitores novos, gente que mudou de ideia e comparecimento diferente produz os mesmos totais.

Mesmo assim, eu quis dar à teoria a melhor chance possível. Somando só os municípios onde a abstenção subiu, e ignorando todos os lugares onde ela caiu, chego a cerca de 1,58 milhão de abstenções "extras". A margem a virar era de uns 2,24 milhões. Mesmo que cada uma dessas pessoas tivesse aparecido e votado no Lula, isso cobre uns 71% da diferença. E o "cada um" está fazendo um trabalho heroico: em qualquer divisão realista o número cai rápido, como mostra o controle abaixo.

A versão mais justa do exercício vai no sentido contrário. Se eu aplico o comparecimento de 2022 de cada município ao voto de 2026, a margem não encolhe: ela cresce, de 2,24 para cerca de 2,45 milhões, porque o comparecimento subiu justamente nos lugares mais lulistas.

Então quem se abstém? Principalmente os mais velhos. Entre eleitores com 70 anos ou mais, para quem o voto é facultativo, a abstenção é de 58,9%, quase o triplo de qualquer outro grupo. Junto com quem tem 16 e 17 anos, o outro grupo com voto facultativo, eles são cerca de 13% do eleitorado e respondem por algo como um terço de todas as abstenções. Parte da subida lenta de vinte anos provavelmente é só um eleitorado envelhecendo, o que diz muito mais sobre demografia do que sobre 2026.

O mapa da virada

Se a abstenção não explica, a próxima pergunta é para onde o voto foi. Peguei os 4.100 municípios que votaram à esquerda em pelo menos 3 das 4 primeiras eleições presidenciais que analisei (2002–2014). Juntos, eles somaram 83% dos votos de 2022, então isso não é curiosidade regional: é a maior parte do país.

Até 2014, esses municípios se dividiam entre esquerda (62–71%) e centro, com a direita praticamente ausente. Em 2018 o centro desabou, de 29% para 6%, e a direita foi de 1% para 47% numa eleição só. A esquerda também caiu, de 70% para 47%. Centro e esquerda perderam cada um uns 22 a 23 pontos, que somados dão mais ou menos o que a direita ganhou: a nova direita se fez no espaço dos dois, não só no do centro. 2022 recuperou uma parte (55% esquerda, 41% direita) e 2026 levou de volta a quase um empate, 49% a 46%.

No nível dos municípios, 39% deles (1.608) têm a direita à frente em 2026. Olhando o primeiro ano em que cada um virou, 1.238 já tinham virado em 2018, só 42 viraram pela primeira vez em 2022 e 328 são novos em 2026. Muitas das viradas de 2018 voltaram para a esquerda em 2022 (a parcela com a direita à frente caiu de 31% para 22%) e voltaram para a direita agora. Então 2026 é menos uma ruptura e mais um 2018 que se repetiu e se alargou um pouco.

O avanço foi bem desigual. Em Santa Catarina, Rio de Janeiro, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Rio Grande do Sul, cerca de 90% dos municípios historicamente de esquerda têm hoje a direita à frente (os 100% do DF e de Rondônia cobrem pouquíssimas unidades, então eu não leria muito neles). No Nordeste é o contrário: no Maranhão, Paraíba, Bahia, Rio Grande do Norte, Ceará e Pernambuco, menos de 3% viraram, e nenhum no Piauí e em Sergipe; Alagoas, com 15%, é a exceção da região. Minas Gerais fica no meio, com 41%. O país não se moveu em bloco: a esquerda histórica quase sumiu no Sul, Sudeste e Centro-Oeste e ficou praticamente intacta no Nordeste.

Renda, região e o voto

A outra explicação fácil é a renda: "pobre vota na esquerda, rico vota na direita". A história é mais estranha. Em 2002, o quinto mais pobre dos municípios era o menos de esquerda (54,5% contra 66–69% nos outros). Em 2006 a ordem se inverteu, e em 2014 os mais pobres davam 84% à esquerda enquanto os mais ricos davam 55%. A distância entre eles chegou ao máximo em 2018, uns 40 pontos.

O que veio depois não foi o pobre virando à direita. De 2014 para 2026, a esquerda perdeu de 22 a 25 pontos nos quintis do meio (Q2 a Q4), 17,5 nos mais pobres e 15 nos mais ricos. Desde 2018 o quinto mais rico é até um pouco mais de esquerda que o quarto, e em 2026 também que o terceiro. Em 2026 todos os quintis perderam entre 5 e 7 pontos, e os mais pobres seguem com 66% para a esquerda. E isso diz onde estão os votos, não quem votou: não dá para concluir que pobre votou na direita, nem que rico não votou.

Boa parte do que parece efeito da renda é região. Em 2026, no mesmo nível de renda, a direita tem 42% nos municípios nordestinos do quintil do meio e 60% nos do Sul. No quarto quintil a distância é de 28 pontos. Como os municípios mais pobres se concentram no Nordeste, qualquer gráfico nacional por renda é em parte um mapa do Nordeste.

Dentro de cada região, a direita cresce sim com a renda, mas chega ao pico no quarto quintil e cai no mais rico: de 66% para 57% no Centro-Oeste, de 60% para 51% no Sudeste, de 67% para 62% no Sul. Meu palpite é que o quintil mais rico carrega as grandes cidades, mas eu não separei isso, então fica como palpite.

Para separar um pouco mais essas coisas, comparei municípios dentro do mesmo estado, controlando as variáveis juntas.

O fator que mais acompanha o voto na esquerda é a proporção de pretos e pardos: algo entre 9 e 12 pontos de voto na esquerda por desvio-padrão, estável em toda eleição desde 2006. A proporção de evangélicos quase não importava até 2014 (−0,4) e saltou para perto de −5,5 pontos a partir de 2018, a mudança de regime mais clara da série inteira. A urbanização também ficou mais negativa depois de 2018. A renda, descontado o resto, pesa entre −1 e −5 pontos, cerca de −2 nas três últimas eleições: real, mas bem menor do que o debate sugere.

Os mesmos municípios não votam do mesmo jeito para todo cargo. Em 2022, a distância entre o quinto mais pobre e o mais rico era de 24 pontos para presidente e praticamente zero para deputado federal (47,4% contra 47,1% para a direita). Nos municípios mais pobres, a direita teve quase o dobro para deputado do que para presidente. Em 2026 o padrão se repete com uma diferença: o gradiente para governador (29 pontos) ficou maior até do que para presidente (23), enquanto deputado federal segue o mais plano (7). A polarização por renda é sobretudo uma característica das disputas do Executivo, não de como esses lugares escolhem seus representantes.

Um último detalhe que me chamou atenção ao passar pelos registros de candidatura. Entre os candidatos de direita a deputado federal, a parcela com título de segurança ou militar no nome de urna ("Sargento", "Delegado", "Coronel") foi de cerca de 1% em 2002 para 7,8% em 2018 e 9,4% em 2026. Títulos religiosos foram no sentido contrário, de 4,6% para 0,9%, mesmo com a associação entre evangélicos e voto crescendo. Na esquerda, os dois ficam abaixo de 2%. Ainda não sei como interpretar essa queda dos religiosos; é um dos fios que quero puxar a seguir.

O que eu não sei

  • Tudo aqui é análise de municípios. Dizer "municípios pobres votam em X" não é dizer "pobres votam em X". Isso é a falácia ecológica, e é o erro mais fácil de cometer com esse tipo de dado.
  • Classificar partido em esquerda, centro e direita é julgamento meu (PSDB, MDB e PSD ficaram no centro). Se você discorda, os números mudam, principalmente antes de 2018, quando o centro era grande.
  • Os preditores são associações controladas por um punhado de variáveis do censo, medidas em 2022. Não estabelecem causa, e tudo o que não está no censo (mídia, política local, redes de igreja) fica fora do modelo.
  • Os dados do TSE respondem onde. Para o porquê eu precisaria de pesquisa com pessoas.

O que mais me ensinou foi desconfiar de explicações que cabem num tweet. Abstenção, renda e "o Nordeste" tinham, cada uma, um pedaço de verdade, mas sozinhas eram em grande parte coincidência geográfica. Os dados do TSE e do IBGE são públicos, e meus notebooks também; se achar um erro, quero saber.

Fontes

  • TSE, Portal de dados abertos: resultados por seção eleitoral e por município/zona, 2002–2026, e registro de candidaturas.
  • IBGE, Censo 2022: renda, cor/raça, religião, instrução e urbanização por município.
  • Classificação dos partidos em esquerda, centro e direita: minha, no partido_ideologia.csv.
  • Notebooks e scripts: rckbrcls/labs no GitHub.